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Quer sejam de propagação ou de aprofundamentos, essas estratégias transmí-dias apelam em comum para uma lógica da familiaridade, intrinsecamente li...

Quer sejam de propagação ou de aprofundamentos, essas estratégias transmí-dias apelam em comum para uma lógica da familiaridade, intrinsecamente ligada à serialização das narrativas audiovisuais tão presente na cultura de massa contem-porânea. É esta também uma das características da transmidiação: o mesmo apelo à repetição e à familiaridade de formas e conteúdos, que, agora, não são mais reco-nhecidos apenas no âmbito de um médium (a tv, por exemplo), mas naquilo que dele “transborda” ou se expande para outros meios (uma “lógica”, essencialmente). O cenário de convergência tecnológica entre os meios favoreceu o que já era uma “lógica” de produção e consumo inerente à cultura de massa contemporânea, ex-plorando ainda mais os procedimentos de repetição e serialização ancorados em mecanismos de reconhecimento de personagens, situações e temáticas ou, em suma, pi Narrativas trasmedia_final.indd 76 9/27/12 9:05 AM aqui também a experiência que se tem é fundada em uma transição voluntária para uma segunda realidade (a do universo iccional) dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas obrigatórias, (Bystrina, 1995; pi Narrativas trasmedia_final.indd 77 9/27/12 9:05 AM justiica-se ainda, por outro lado, pela necessidade já apontada de considerar que uma narrativa transmídia deve ser caracterizada, antes de tudo, como uma narrativa. Precisa observar, portanto, um sistema implícito de unidades e regras que deinem uma narrativa como tal. Ainda que seja em si mesma dotada de particularidades decorrentes de sua articulação em várias plataformas, a narrativa transmídia deve comportar, como qualquer outra, um nível de descrição que envol-va funções, actantes (atuantes) e etapas de ações invariantes. Não cabe, portanto, a designação de narrativa a determinados fenômenos transmídias que, apelam à ludicidade, mas não operam com os níveis e instâncias que deinem uma narração como tal. Para discernir os limites entre as distintas experiências transmídias cabe então buscar apoio nas teorias da narrativa e, em particular, na semiótica discursiva. A semiótica concebe a narrativa como um percurso de transformação de estados do sujeito na sua relação de junção com objetos-valor. A relação entre o sujeito e o objeto pressupõe a transitividade entre dois estados fundamentais: o sujeito pode estar em conjunção ou em disjunção com o objeto. Essa unidade elementar ou “mo- lécula da narratividade” – denominada de programa narrativo (PN) – corresponde à transformação de um estado a outro. No primeiro caso, temos um enunciado de estado conjuntivo, o que corresponde a um programa de aquisição (sujeitos em busca de conjunção com o objeto). No segundo caso, temos um enunciado de esta- pi Narrativas trasmedia_final.indd 78 9/27/12 9:05 AM 79 Transmidiação, entre o lúdico e o narrativo do disjuntivo, o que corresponde a um programa de privação (sujeito em busca de disjunção com o objeto). Toda narração possui etapas de transformação e atuantes (ou actantes) invariantes que, no nível discursivo, são recobertas por tematizações e igurativizações variáveis.4 Todos os textos possuem um nível narrativo desde que se entenda narrativi- dade como qualquer transformação de estado. Implícita ou explicitamente, segun- do Fiorin (1994), todos os textos trabalham com transformações. Ele cita como exemplo um texto que ninguém reconheceria como narrativo, um teorema. Seja qual for o teorema, temos a transformação de um estado inicial não demonstrado para um estado inal demonstrado. O sentido atribuído a esse tipo de texto, como em outros, não depende, no entanto, de uma exploração do próprio percurso de transformação, pois o que importa, de fato, é evidenciar os estados inicial e inal. Quando um texto enfoca a transformação propriamente dita temos, então, um percurso que explicita as ações (etapas) envolvidas na transformação. Em todos os textos há, portanto, narratividade, mas nem todos os textos constroem, a partir de sua narratividade, uma narrativa (ou narração). Os textos que, na produção iccional, reconhecemos como narrações são aqueles nos quais observamos bem claramente um programa narrativo de base (programa principal), identiicado à performance necessária à transformação dos estados. Na maioria das narrativas, há pelo menos um programa de base (principal) e, associado a ele, há vários programas de uso ou programas auxiliares que consistem em etapas da transformação. Estes correspondem às ações secundárias associados à performance (ação principal de 4 A gramática narrativa propõe a existência de seis actantes: sujeito e objeto, destinador e destinatário, adjuvante e oponente. Actantes não são personagens. São posições deinidas na narrativa. No nível discursivo, essas posições são igurativizadas por atores discursivos que podem corresponder, por exemplo, a personagens. O percurso narrativo canônico do sujeito é composto por quatro grandes fases ou etapas, que podem aparecer ou estar pressupostas: manipulação, competência, performance e sanção. No nível discursivo, essas posições e etapas concretizam-se sob a forma de temas e iguras. Vejamos um exemplo: um sujeito A, que estava em conjunção com o objeto-valor vida, entra em disjunção com ela. Essa estrutura pode ser concretizada como um assassinato se o sujeito operador da transformação for concretizado como um homem diferente de A. Pode ser um suicídio se o sujeito operador da disjunção e o sujeito A forem concretizados como a mesma personagem. Pode ainda ser uma morte por acidente se o sujeito operador da transformação for concretizado como um desastre ou uma catástrofe natural. Essa primeira concretização, denominada tematização, é suscetível de um novo “revestimento” denominado igurativização. O assassinato, por exemplo, pode ser igurativizado por uma das seguintes situações: um homem morto por ladrões durante um assalto, por um espanca- mento ou por um tiro dado por soldados a serviço de um governo despótico, e assim por diante. Veja mais em Fiorin (1994) e Barros (1994). pi Narrativas trasmedia_final.indd 79 9/27/12 9:05 AM 80 Narrativas Transmedia. Entre teorías y prácticas transformação). As narrativas mais complexas resultam da articulação, por meio de integrações, interpenetrações e encaixes sucessivos, de vários PNs de base com seus respectivos PNs de uso, compondo o conjunto textual. O programa narrativo de base subsume, portanto, um conjunto de programas narrativos auxiliares que funcionam como unidades interdependentes, dotadas de diferentes graus de autonomia em relação ao principal. Todas essas unidades preci- sam ser pensadas, no entanto, como termos de uma relação existente entre as ações que compõem a história. Desempenham, por isso, uma função narrativa e estas, segundo Barthes (2008, p. 31-35), podem ser de duas ordens: cardinais ou catali- sadoras.5 Uma função cardinal pode ser descrita como um ato complementar que abre, mantém ou fecha uma alternativa subsequente para o seguimento da história. Logo, possui uma incidência direta sobre a sequência de ações. Por mais tênue que seja o io, o ato está ligado a um dos níveis da história, permitindo o encadeamento ou entrelaçamento das ações. Todos esses atos ou eventos, que operam uma funcio- nalidade inerente a um fazer, podem ser pensados como “núcleos” que, ao mesmo tempo, que determinam, são também determinados, pela ação principal. Em torno desses núcleos, porém, podem gravitar outras unidades que não colaboram para imprimir pontos de alternativa (momentos de risco da narrativa), mas contribuem para caracterização dos personagens, lugares e ambientes, bem como para criar uma “atmosfera”, para imprimir ritmo (acelerar, retardar

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Narrativas Transmedia
252 pag.

Teoria da Narrativa Universidad De La SabanaUniversidad De La Sabana

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